"Chaque fois qu’un avion est beau, il vole bien", dizia Marcel Dassault, o criador dos caças franceses Mirage, entre outros. Traduzindo de forma livre, "para um avião voar bem precisa ser bonito".
Dassault quase sempre tinha razão, mas houve gente que decidiu contrariar sua máxima. São projetos que tentaram romper um limite do voo, buscar uma nova maneira de voar e ser mais eficiente. Na maior parte dos casos, no entanto, o resultado é, para dizer o mínimo, estranho. Airway reuniu nesta galeria 10 desses veículos voadores que muita gente nem ousaria chamar de aeronave.
Geralmente, um design incomum tem a ver com conceitos inéditos. É o caso de vários dos aviões acima. Da asa-tesoura da NASA ao Tacit Blue Whale, da Northrop, o importante era testar os conceitos na prática já que na época não existiam computadores e softwares capazes de simular com precisão seus efeitos.
Algumas delas vingaram como o caça 'invisível' F-117A, o primeiro (até onde se sabe) avião realmente furtivo aos radares. Dar de cara com ele por aí, no entanto, exige alguns minutos para responder a pergunta: "mas isso aí voa mesmo?". Confira:

Não, não é uma piada ou montagem: existiu mesmo o F-82 Twin Mustang, projetado para voos de longo alcance - enquanto um piloto descansava, o outro assumia.
Parece que dois P-51 Mustang se fundiram no meio de uma manobra, mas o Twin Mustang foi um projeto seríssimo da North American Aviation para a Guerra do Pacífico. A ideia era escoltar os B-29 Superfortress em missões de mais de oito horas sobre o oceano — tempo demais para um único piloto. Com dois fuselagens unidas por uma asa central e um estabilizador horizontal comum, a aeronave levava dois pilotos que se revezavam nos comandos. O F-82 entrou em serviço em 1946, tarde demais para a Segunda Guerra, mas fez história na Coreia: em junho de 1950, um Twin Mustang abateu o primeiro avião inimigo do conflito.

Parece um mini-Jumbo, mas o Carvair foi um projeto curioso, que usava como base um DC-4. Na frente, a cabine migrou para o topo para permitir o carregamento de cinco carros (daí a menção automobilística).
Idealizado pelo lendário Freddie Laker, o Aviation Traders ATL-98 Carvair surgiu da necessidade de transportar automóveis pelo Canal da Mancha de forma mais eficiente que o antigo Bristol Freighter. A solução foi pegar um Douglas DC-4 excedente e reconstruir sua dianteira com uma "corcunda" que lembra o Boeing 747, elevando a cabine de pilotagem para criar uma escotilha de nariz. Assim, cinco carros entravam pela frente enquanto 22 passageiros iam na traseira. Foram convertidas 21 unidades, que voaram até os anos 1990.

O Amiot 143 foi o último bombardeiro francês da 2ª Guerra e acabou sendo usado para panfletagem nazista. Suas grossas asas permitiram que os mecânicos mexessem no motor em voo.
Esse bombardeiro francês de 1935 é um caso raro de feiura funcional. Com seu cockpit envidraçado "tipo estufa" e trem de pouso fixo, o Amiot 143 já era obsoleto quando a guerra começou, mas serviu heroicamente nos primeiros meses contra a invasão alemã. Após a queda da França, a Luftwaffe aproveitou algumas unidades para lançar panfletos de propaganda. Sua característica mais bizarra: as asas grossas abrigavam passagens internas que permitiam aos mecânicos acessar os motores em pleno voo.

Talvez nem vale chamá-lo de avião, muito menos de embarcação: os ekranoplanos foram uma aposta soviética para ataque ao Ocidente.
Desenvolvidos em segredo durante a Guerra Fria, os ekranoplanos exploravam o "efeito solo" — uma camada de ar comprimido entre as asas e a superfície da água. O mais famoso, o "Monstro do Mar Cáspio", media quase 100 metros e carregava mísseis antinavio. A ideia dos soviéticos era criar uma nave que voasse a poucos metros das ondas, invisível aos radares e rápida o bastante para surpreender porta-aviões americanos. O projeto foi abandonado após o fim da URSS.

Burt Rutan nunca foi um projetista de aviões comuns, mas com o Proteus ele passou dos limites.
O Rutan Model 281 Proteus é um avião de asa tandem com 24 metros de envergadura e motores montados em uma estrutura destacada da fuselagem principal. Criado em 1998, o Proteus foi projetado para voar a até 18 km de altitude por mais de 18 horas seguidas. Rutan, o mesmo do Voyager (primeiro avião a dar a volta ao mundo sem escalas) e do SpaceShipOne (primeiro veículo privado a chegar ao espaço), usou o Proteus como plataforma de testes para comunicações e sensores de alta altitude.

Qualquer criança desenharia o Tacit Blue Whale, mas acreditem: ele é um estudo sério que antecipou o bombardeiro stealth B-2.
O Northrop Tacit Blue, apelidado de "Baleia" por seu formato arredondado e desajeitado, foi um dos programas stealth mais secretos dos EUA nos anos 1980. Com suas laterais inclinadas e cauda em V, o avião parecia uma brincadeira de criança, mas serviu para validar tecnologias que depois apareceriam no B-2 Spirit. Além da furtividade, o Tacit Blue testou sensores que enxergavam através de nuvens — essenciais para missões de reconhecimento tático.
O avião britânico Optica lembra uma libélula e seu objetivo é mais ou menos parecido: ser uma opção para helicópteros.
Projetado por Edgley nos anos 1980, o Optica tem uma cabine envidraçada que oferece visão quase panorâmica de 270 graus, perfeita para tarefas como patrulha de dutos, vigilância de tráfego e observação da natureza. Com motor a hélice montado na traseira, ele opera lento e baixo, exatamente onde helicópteros são caros demais. O projeto quase decolou comercialmente, mas problemas financeiros e um acidente em 1990 enterraram a produção — restando apenas alguns protótipos.

Os russos eram especialistas em colocar à prova vários conceitos curiosos. O Mil V-12, por exemplo, era um helicóptero que transportaria 200 passageiros, o mesmo que um jato comercial médio. Mas só dois foram feitos.
O Mil V-12 é o maior helicóptero já construído. Com dois rotores laterais montados em asas gigantes, ele parecia mais um avião de carga tentando decolar na vertical. Projetado na década de 1960 para a Força Aérea Soviética, o V-12 tinha 37 metros de comprimento e seus rotores juntos somavam 67 metros de diâmetro. Em 1969, estabeleceu recordes de carga que permanecem até hoje. Mas era complexo demais, caro e desajeitado; o projeto foi cancelado e apenas dois exemplares foram construídos.

É um jato? É um avião a hélice? O Thunderscreech era, na verdade, uma tentativa americana de desenvolver hélices que pudessem funcionar em velocidades supersônicas, mas tudo não passou de uma ideia inviável.
O Republic XF-84H "Thunderscreech" foi um dos aviões mais barulhentos e problemáticos da história. Equipado com uma hélice supersônica acionada por um motor turboélice, ele produzia ondas de choque que deixavam os mecânicos no chão enjoados e com dores de cabeça fortíssimas. Apenas um protótipo chegou a voar, e por poucos minutos: a vibração e o ruído tornavam a operação insustentável. O sonho de uma hélice voando mais rápido que o som provou ser um beco sem saída.

Avião-tesoura: o AD-1 foi um estudo da NASA para uma asa pivotada que mudava de ângulo conforme a velocidade. Pelo jeito, ninguém gostou.
Entre 1979 e 1982, a NASA testou o Ames AD-1, um pequeno jato movido a dois motores turbojato, com uma característica única: sua asa inteira girava sobre um pivô central, indo de 0° a 60° durante o voo. Em baixa velocidade, a asa ficava reta para dar sustentação; em alta velocidade, ela se inclinava para reduzir o arrasto. Voou 79 vezes, mas os pilotos reclamavam de instabilidade e controle difícil. A asa oblíqua nunca decolou comercialmente — literalmente.
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