Você olha para algumas coisas na vida e jura que está vendo um avião. Mas não está. É uma cilada, Bino.
Em Brasília, por exemplo, o arquiteto Lúcio Costa não projetou só um plano piloto — ele desenhou um avião gigante no chão. A cidade tem asa norte, asa sul, um eixo monumental que parece fuselagem e até um "cockpit" na Praça dos Três Poderes. O negócio é tão aéreo que só falta decolar no horário de verão.

Depois você vê uma capela e tem certeza de que é um caça russo empinado, rezando uma ave-maria supersônica. Não é. É só fé com formas aerodinâmicas. Santa coincidência, Batman? Talvez o arquiteto fosse fã do MiG-25 Foxbat.

Aí você sai para a rua e dá de cara com o tal do "carro caça" — uma lasanha motorizada com cara de F-16 estacionado na vaga de idoso. Alguém pegou fibra, entusiasmo e muito Jet Fuel (como diz a foto), e resolveu que o asfalto também merecia winglets. O Terrafugia ao menos tentava voar. Esse aí nem isso: é um caça de rodinhas, pronto para levar o dono à feira livre em modo afterburner.

Porque o Terrafugia, sim, era um carro voador de verdade — ou quase. Entra naquela famosa teoria do pato: nada, voa e anda, mas não faz nenhum dos dois direito. Ele é o "avião que virou carro" ou o "carro que sonha com asa"? No fim, é só mais um objeto que parece, mas não é.

E tem o Firebird, que parece um jato embriagado, mas era só um projeto conceitual de automóvel. Imagina o crash-teste de uma coisa dessas. O boneco nem chega a balançar a cabeça — já desintegrou.

O ecranoplano então é a cereja do bolo da confusão. Parece um avião, mas é mais que isso: é uma nave que vive no meio-termo entre a água e o céu, um monstro soviético que nunca aprendeu a voar de verdade, mas também não aceita ser chamado de barco.

E tem até terminal de aeroporto na Dinamarca atravessado que nem um avião hipersônico. Olha a foto de Kastrup: parece que um Concorde de concreto pousou torto e desistiu. Mas não. É só arquitetura nórdica tirando sarro do seu cérebro.

Depois, você olha para uma casa e jura que o dono começou a construir uma mansão dentro de um A380, mas a grana acabou e só deu para instalar o estabilizador vertical de um Boeing 707 no quintal. É a versão arquitetônica do "comecei, mas não terminei".

No fundo, o mundo está cheio de objetos que querem ser aviões. Uns por falta de grana, outros por excesso de imaginação – e alguns porque a natureza, como a baleia, já projetava asas muito antes de Santos Dumont. Parecia avião, mas não era. E ainda bem: o céu já está cheio.



