A tensão entre a Bélgica e a fabricante francesa Dassault Aviation veio a público nesta semana, revelando divergências profundas sobre o futuro da cooperação europeia em defesa.
O estopim foi o anúncio de que Bruxelas comprará mais 11 caças F‑35A da Lockheed Martin, poucos meses após ter investido €300 milhões para se tornar membro pleno do Future Combat Air System (FCAS), projeto europeu liderado por França, Alemanha e Espanha para desenvolver um caça de sexta geração.
Em declarações contundentes, o CEO da Dassault, Eric Trappier, acusou o governo belga de agir com hipocrisia. “Se a Bélgica desistisse dos F‑35, seria bem-vinda ao FCAS. Do contrário, estão nos tratando como tolos”, afirmou. A crítica expôs uma disputa que mistura interesses estratégicos, rivalidade industrial e desconfiança geopolítica entre parceiros europeus.

O ministro da Defesa da Bélgica, Theo Francken, respondeu à altura, chamando Trappier de “arrogante” e afirmando que o país reavaliará sua participação no FCAS. “Somos membros fundadores da OTAN e da UE. Não precisamos de sermões de executivos da indústria”, declarou.
O FCAS foi concebido para ser um símbolo da autonomia estratégica europeia em defesa, mas desde o início enfrenta disputas internas sobre liderança tecnológica, divisão de tarefas e participação de países fora do núcleo franco-germânico.
A entrada da Bélgica, que originalmente havia optado pelo F‑35 em 2018, sempre foi vista com reservas por parte da Dassault — que lidera a parte aérea do programa com base em sua experiência no Rafale.
Impacto limitado, mas simbólico
O recente anúncio da compra adicional de caças americanos acentuou essa tensão. Para a França, o gesto belga mina a coerência política do FCAS e levanta dúvidas sobre seu verdadeiro compromisso com o projeto.

Mesmo que a Bélgica opte por sair da fase plena de desenvolvimento entre 2026 e 2030, o impacto técnico no FCAS será pequeno. Mas simbolicamente, a crise reforça um cenário recorrente: a dificuldade da Europa em manter projetos de defesa comuns coesos e livres de interferência externa.
Trappier também voltou a criticar o modelo de governança do FCAS e sugeriu que, caso o formato atual persista, a Dassault pode considerar seguir um caminho independente.
A disputa, embora centrada em um ator periférico do programa, revela os desafios estruturais da cooperação europeia em defesa. E serve como alerta: sem alinhamento estratégico claro entre seus membros, o FCAS corre o risco de repetir os mesmos erros que projetos anteriores — caros, atrasados e politicamente instáveis.
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