Num pequeno e discreto hangar no aeroporto Centennial, nos subúrbios de Denver, no Colorado, está acontecendo neste momento uma possível revolução no transporte aéreo. É lá que fica a sede da Boom Supersonic, uma startup fundada em 2014 por Blake Scholl, um ex-engenheiro de softwares da Amazon e que resolveu criar um avião de passageiros supersônico depois de conhecer o Concorde de perto num museu.

Scholl conseguiu o que parecia impossível para alguém que não circulava no meio aeronáutico até então e recebeu investimentos de vários fundos de capital de risco para seu projeto, um jato capaz de voar a Mach 2,2 (mais de duas vezes a velocidade do som) transportando entre 55 e 75 passageiros além de seis tripulantes em distâncias de até 8.300 km, algo como voar entre o Rio de Janeiro e Madri, na Espanha.

O programa do jato Overture anda a passos largos e deve apresentar ainda em 2020 o XB-1, um conceito com um terço da escala da aeronave em série. Com ele, a Boom pretende comprovar que o projeto é capaz de cumprir os requisitos de um supersônico civil, ou seja, voar a uma distância considerável e a uma velocidade quase três vezes a de um Boeing ou Airbus, mas consumindo pouco combustível e, sobretudo, de forma "silenciosa". Por silenciosa, entenda-se uma aeronave que emita ruídos aceitáveis em ambiente urbano, o maior desafio dos novos aviões supersônicos.

Eis aí um grande mistério da Boom. Enquanto outras iniciativas ainda patinam e a própria Nasa e Lockheed Martin estão em um estágio inicial para validar tecnologias capazes de produzir um avião supersônico viável, a empresa de Scholl já tem até clientes interessados, a Japan Air Lines e a Virgin Atlantic (claro).

Mas por que o Overture pode se transformar no primeiro avião supersônico civil construído de forma independente? As respostas foram dados pelo próprio CEO nos últimos anos.

Jatos Concorde da British Airways (British Airways)
Jatos Concorde da British Airways (British Airways)

Concorde dinossauro

Em uma artigo de 2017, o executivo comparou o Overture com o Concorde para esclarecer como seu projeto será capaz de fazer o que o jato anglo-francês não conseguiu. "O Concorde foi projetado há 50 anos com recursos limitados; hoje temos o benefício de meio século de melhorias em aerodinâmica, materiais e propulsão. Essas tecnologias combinam-se para permitir uma aeronave mais rápida e eficiente que o supersônico europeu", explicou Blake.

Entre os diferenciais do novo avião estão a fuselagem em fibra de carbono com um desenho "esculpido" em computadores, além de motores muito mais eficientes. A construção com material composto, explica ele, permite "criar uma estrutura forte e leve em qualquer forma dinâmica desejada". Já no Concorde, com uma estrutura em alumínio, isso era impraticável.

O material usado no Overture também permite suportar temperaturas mais altas, que atingem entre 152ºC a 177ºC, a um velocidade Mach 2,2. O Concorde não passava de Mach 2 por essa razão, diz ele.

Outra diferença do supersônico europeu era fazer uso de um recurso militar, o pós-combustor, que acrescentava 17% mais empuxo aos motores, porém, aumentava o consumo de combustível em 87%. Atualmente, os turbofans são mais potentes e econômicos, mas no caso de um supersônico não é possível utilizar motores de grande razão de diluição (os chamados high-bypass) como vemos em jatos como o A320neo ou o 737 Max.

Fileiras com apenas dois assentos (Boom)
Fileiras com apenas dois assentos (Boom)

A solução adotada pela Boom será o de utilizar turbofans de média razão de diluição sem pós-combustor, mas acrescido de um sistema de ingestão e exaustão com geometria variável. Tanto o Overture quanto o XB-1 serão equipados com três desses motores, algo que também surpreende numa era de aviões bimotores.

Para evitar o boom supersônico (não confundir com seu nome), o jato dependerá do desenho de sua fuselagem e asas para que no momento do estampido sônico, apenas pequenas e separadas ondas não incomodem as pessoas no solo. Foi esse problema que fez com que o Concorde fosse banido de voar acima de Mach 1 dentro dos EUA.

Meio bilhão de potenciais clientes

Para justificar o alto investimento, os novos supersônicos têm algo em comum, um público abastado. Não é algo muito diferente dos tempos do Concorde, que voava regularmente apenas entre Nova York e Londres ou Paris com passageiros que mesclavam celebridades e executivos de alto escalão, os únicos que conseguiam bancar seus caros bilhetes.

Enquanto outros projetos miram em jatos supersônicos executivos, a Boom preferiu desenhar um avião comercial equipado apenas com uma classe executiva. A razão é que 12% dos passageiros da aviação comercial, o que representa quase meio bilhão de viagens por ano, paga por esse conforto e por isso a meta da empresa é que o custo das passagens do Overture seja semelhante - bem menos, portanto, que o Concorde.

As janelas o Boom Overture serão maiores e os assentos terão imensas telas touchscreen (Boom)
As janelas o Boom Overture serão maiores e os assentos terão imensas telas touchscreen (Boom)

O Overture terá assentos individuais sem grande largura afinal a duração do voo será bem mais curta. As janelas serão enormes, ao contrário do Concorde, e cada assento contará com uma ampla tela touchscreen.

A Boom não fala em preço, mas o Overture possui uma lista de interessados que pré-reservaram cerca de 75 aviões. JAL e Virgin, como dissemos, estão entre elas, mas diante dos problemas recentes talvez não constem como clientes no futuro diante da situação atual.

Nada disso parece diminuir o otimismo de Blake Scholl. Nesta semana, o XB-1 recebeu suas asas e começa a ganhar forma no hangar em Denver. Se tudo correr dentro do esperado, a aeronave experimental será apresentada nos próximos meses e então será levada para Mojave onde realizará seus voos de teste. O local não poderia ser mais apropriado. É no aeroporto no deserto da Califórnia que estão empresas como a Stratolaunch, a Scaled Composites e a Virgin Galactic.

Se provar que é capaz de entregar o prometido, a Boom deve ter anos empolgantes pela frente ao liderar a volta dos voos supersônicos de passageiros. "Vimos um progresso mensurável em quase todas as áreas da conquista humana, mas, de alguma forma, os vôos hoje levam o mesmo tempo que levaram na década de 1950. Podemos fazer melhor", acredita a empresa.

Veja também: Novo Concordski? Rússia quer testar protótipo de jato comercial supersônico em 2023

O XB1 deve voar ainda em 2020 (Boom)
O XB1 deve voar ainda em 2020 (Boom)