A longa jornada da Índia para promover o HAL Tejas como um caça competitivo para exportação sofreu mais um golpe na semana passada, após uma unidade do jato ter se acidentado durante uma exibição aérea no Dubai Airshow, um evento repleto de potenciais clientes  e fabricantes rivais.

A perda da aeronave, assim como a do piloto Namansh Syal, ofuscou instantaneamente um esforço de quatro décadas para transformar o Tejas em um símbolo da autossuficiência da Índia na aviação militar.

A causa do acidente ainda está sob investigação, mas o timing não poderia ser pior para um programa que já enfrentava desafios de produção, problemas na cadeia de suprimentos de motores e crescente pressão da própria força aérea da Índia, que lida com o número reduzido de esquadrões e entregas atrasadas.

Caça Tejas caiu no Dubai Airshow
Caça Tejas caiu no Dubai Airshow

O acidente em Dubai reforçou um dilema que o governo indiano tem lutado para evitar: o Tejas deveria ser uma vitrine para as ambições aeroespaciais da Índia, mas continua a depender quase totalmente de pedidos internos para sobreviver.

A HAL tem 180 caças Mk 1A encomendados pela Força Aérea Indiana, mas ainda não entregou o primeiro devido a atrasos relacionados à cadeia de suprimentos de motores da GE. As ambições de exportação, que antes se direcionavam a mercados na Ásia, África e América Latina, agora enfrentam um desafio ainda maior.

JF-17 da Força Aérea do Paquistão: rival tem obtido pedidos (Shimin Gu)
JF-17 da Força Aérea do Paquistão: rival tem obtido pedidos (Shimin Gu)

Namoro com o Brasil e o C-390

O contraste em Dubai foi difícil de ignorar. Enquanto o Tejas lidava com as consequências do acidente, a PAC (Corporação de Aviação do Paquistão) usou o mesmo evento para anunciar uma nova venda do JF-17 Block III, a versão mais recente do caça que desenvolve em parceria com a China.

O JF-17 ocupa o mesmo segmento de mercado que o Tejas, mas tem uma grande vantagem: já possui vários operadores estrangeiros, incluindo Nigéria, Mianmar e Azerbaijão, e a versão Block III traz radar AESA, aviônicos aprimorados e mísseis chineses de longo alcance.

A PAC foi rápida em rotular o jato como ‘testado em combate’, uma mensagem que ressoa bem em regiões que buscam caças acessíveis com um histórico comprovado de combate. Para países que avaliam custo, capacidade e alinhamento político, a crescente presença de exportação do JF-17 contrasta fortemente com a tentativa estagnada do Tejas de se estabelecer no exterior.

C-390 com as cores da Força Aérea da Índia (Embraer)
C-390 com as cores da Força Aérea da Índia (Embraer)

Uma das esperanças do governo do primeiro ministro Narendra Modi é o Brasil. Conversas com autoridades brasileiras insinuam uma possível venda casada de caças Tejas para a FAB enquanto a Força Aérea Indiana escolheria o C-390 Millennium da Embraer no programa MTA. Mas até o momento essa hipótese não foi levada à frente.

Para a Índia, o Tejas ainda carrega uma importância de longo prazo além das vendas imediatas. Analistas observam que o programa construiu uma valiosa experiência industrial após anos de sanções, atrasos e problemas com motores, e continua sendo a base para a próxima geração de aeronaves de combate da Índia.

Os caças Tejas Mk 1A sem motores (HAL)
Os caças Tejas Mk 1A sem motores (HAL)

Mas as feiras aéreas são, em última análise, palcos para a confiança, e Dubai trouxe um lembrete doloroso de que a percepção importa tanto quanto o desempenho.

Reconstruir a confiança no Tejas exigirá tempo, transparência e, acima de tudo, uma linha de produção estável. Até lá, rivais como o JF-17 continuarão a apertar seu controle sobre os mercados que a Índia esperava entrar.