A falta — ou a não certificação — de poltronas para cabines virou um novo entrave na entrega e na entrada em serviço de aeronaves novas. O caso mais dramático envolve a Lufthansa: dos 28 assentos de Classe Executiva instalados em seu novo Boeing 787-9, apenas quatro suítes na parte dianteira da cabine receberam certificação da Federal Aviation Administration (FAA).

Os outros 24 assentos da chamada cabine Allegris permanecem sem homologação após problemas detectados em testes de impacto, obrigando a empresa a operar com quase toda a seção bloqueada.

O episódio da Lufthansa expõe uma fragilidade maior: a cadeia de suprimentos de aeronaves continua pressionada desde o fim da pandemia. A recuperação da demanda por viagens de longa distância e o apetite por cabines premium cresceram mais rápido que a capacidade de produção e de certificação dos fornecedores.

Além disso, novos projetos de assentos são cada vez mais complexos — com mecanismos de reclinação, portas de privacidade e integração eletrônica —, o que amplia o tempo e o risco nos ensaios de aprovação.

A321neo da American Airlines (BriYYZ)
A321neo da American Airlines (BriYYZ)

Avião entregue sem assentos

Outros exemplos públicos mostram que o problema já afeta várias operações. A Air India reconheceu atrasos de até um ano em programas de retrofit e modernização de cabines porque os assentos certificados não estavam disponíveis no prazo esperado.

Nos Estados Unidos, a American Airlines viu um Airbus A321XLR novo ficar impossibilitado de entrar em serviço na configuração prevista devido ao atraso na entrega de poltronas planejadas para a aeronave, o que forçou alternativas temporárias.

Especialistas apontam algumas causas centrais: processos regulatórios exigentes (testes de impacto e fadiga), concentração de fornecedores-chave com capacidade limitada, alta customização imposta pelas companhias e gargalos logísticos. Quando falhas aparecem em testes — como no caso dos assentos da Collins Aerospace —, os fornecedores precisam revisar projetos, repetir ensaios e, por vezes, recolher lotes já produzidos, o que prolonga atrasos.

A320neo da Air India (Anna Zvereva)
A320neo da Air India (Anna Zvereva)

As soluções praticáveis variam: fabricantes e fornecedoras tentam acelerar novos ciclos de certificação; companhias aéreas estudam substituir temporariamente modelos de assentos por opções já certificadas ou operar com fileiras bloqueadas; e, em alguns casos, as entregas de aeronaves são postergadas até a conclusão das homologações.

Ainda assim, não há um prazo único para a normalização — para muitos observadores, a expectativa é de melhorias graduais nos próximos meses, mas a resolução completa depende de reinvestimentos em capacidade industrial e de processos de certificação mais rápidos ou mais previsíveis.

Enquanto isso, o problema das poltronas segue impactando cronogramas, receitas e a experiência do passageiro — um lembrete de que, mesmo num setor acostumado a lidar com complexidade técnica, a logística de interiores pode travar até mesmo as maiores entregas da aviação comercial.