Fim da linha para a Aigle Azur. O tribunal de comércio da França liquidou a companhia aérea e ordenou o encerramento de todas as atividades até a meia-noite desta sexta-feira (27).

A justiça francesa rejeitou as duas ofertas de aquisição pela empresa alegando que “nenhuma solução duradoura foi proposta pelos possíveis compradores”, segundo a presidente da corte, Sonia Arrouas, em entrevista ao jornal Le Figaro. A juíza ainda lamentou “as isenções de responsabilidade e a ausência de ofertas concretas e a falta de meios financeiros credíveis”, propostas pelos compradores.

Os interessados em assumir a companhia eram Lionel Guerin (ex-executivo da Air France) e Gérard Houa, um acionista de 19% da Aigle Azur e que no início de setembro autoproclamou-se presidente da empresa, mas acabou destituído do cargo pelos outros investidores dois dias depois.

A Air France também estava interessada no processo, mas não enviou uma oferta. “Temos um ambiente social estável da Air France e deixamos claro que não pretendemos colocá-lo em risco”, disse Ben Smith, CEO do grupo Air France-KLM.

Como resultado da escolha do tribunal, todos os funcionários da Aigle Azur (800 na França, 350 na Argélia) serão demitidos nas próximas semanas. O governo francês está empenhado em ajudar os funcionários a se reclassificarem "em um contexto em que as empresas europeias do setor estão contratando", de acordo com o Secretário de Estado dos Transportes, citado pelo jornal francês.

Processo de falência relâmpago

A Aigle Azur parou seus aviões no início de setembro, dias depois de declarar falência. Enfrentando dificuldades financeiras há mais de uma década, a empresa ficou sem condições de pagar seus credores e no dia 6 de setembro cancelou todos os voos programados.

O processo de falência da Aigle Azur nos tribunais da Grança foi realizado em menos de um mês. Situação bem diferente do martírio judicial da Avianca Brasil/Ocean Air, iniciado no final de 2018 e até correndo. Em 11 de setembro, a Justiça de São Paulo descartou a falência da companhia mesmo estando claro que não há existem chances de recuperação.

A Aigle Azur teve de devolver um A320 arrendado em junho por falta de pagamento (Pedro Aragão)
A Aigle Azur teve de devolver um A320 arrendado em junho por falta de pagamento (Pedro Aragão)

As principais rotas da empresa eram voos para a Argélia, operando em seis destinos no país do Norte da África. Ainda no continente africano, a companhia atendia Mali e Senegal, países que no passado foram colônias da França.

A Aigle Azur também deixou na mão clientes brasileiros que compraram bilhetes para Paris. A empresa operava no Brasil pelo aeroporto de Viracopos, em Campinas, a partir de Orly, a cerca de 13 km do sul da capital francesa. O voo era realizado com jatos Airbus A330-200 em cinco frequências por semana e as passagens podiam ser adquiridas por meio de codeshare com a Azul, que suspendeu o acordo em abril deste ano.

Em um de seus últimos comunicados, A Airgle Azur não prometeu reembolsou imediato aos clientes e sugeriu aos mesmos que adquirissem bilhetes de outras companhias.

A empresa ainda operava voos internos na França, trechos para quatro destinos em Portugal (Lisboa, Porto, Faro e Funchal) Líbano e voos charter para o Iraque.

Voos para as colônias

A Aigle Azur foi uma das companhias aéreas mais longevas da França e tinha a marca simbólica de ser a primeira empresa aérea francesa privada criada após a Segunda Guerra Mundial. A companhia foi fundada pelo empresário francês Sylvain Floirat em 1946 e iniciou seus voos com os trimotores alemães Ju 52 para 32 passageiros.

A principal missão da empresa era movimentar passageiros entre as diversas colônias francesas que permaneciam na África e no Oriente Médio, rotas que se tornaram o principal mercado da Aigle Azur em toda sua história, especialmente para a Argélia, que sempre foi o maior mercado da companhia.

Um antigo Boeing 307 Stratonline da Aigle Azur( San Diego Air and Space )Museum Archive)
Um antigo Boeing 307 Stratonline da Aigle Azur( San Diego Air and Space )Museum Archive)

A Aigle Azur ainda operou no Mali, Senegal, Guiné, Marrocos e Tunísia, países que se tornariam independentes nos anos (ou décadas) seguintes após o conflito mundial. Outras antigas colônias da França atendidas pela empresa eram o Líbano e a Indochina Francesa, hoje independente e dividida entre Vietnam, Laos e Cambodja.

Além dos antigos Junkers, a frota clássica da Aigle Azur contou com modelos Douglas DC-3 e o Boeing 307 Stratoliner, operados até o final da década 1960.

Outro destino tradicional da companhia foi o voo para Bagdá, no Iraque. A Aigle Azur foi a primeira companhia aérea do mundo a receber autorização para voar até o país no Oriente Médio após série de conflitos na região entre os anos 1990 e está década. O voos da empresa francesa para a capital iraquiana começaram em novembro de 2010 e terminaram com a paralisação da empresa, em dia 6 de setembro de 2019.

Os Boeing 737 da série Classic foram os primeiros jatos da Aigle Azur (Pedro Aragão)
Os Boeing 737 da série Classic foram os primeiros jatos da Aigle Azur (Pedro Aragão)

Em seus últimos anos de operações, a Aigle Azur lançou seus maiores voos, para o Brasil e China. As rotas foram iniciadas em 2018 e acabaram um ano depois durante o processo de falência da empresa.

De mão em mão

Em 1 de maio de 1955, Sylvain Floirat transferiu toda a frota da Aigle Azur para a União Aérea Marítima de Transporte (UAT), companhia francesa que encerrou as atividades em 1963.

Propaganda antiga da "Lucas Aigle Azur), de 1984
Propaganda antiga da "Lucas Aigle Azur), de 1984

Em 1970, a Aigle Azur foi adquirida pela empresa regional Lucas Air (hoje no ramo de táxi aéreo) e passou a atuar como uma espécie de divisão de luxo, com voo fretados para políticos, empresários, equipes esportivas e artistas. Em certas ocasiões, a empresa também era anunciada com o nome Lucas Aigle Azur.

Continuando a mudança de comandos que marcou a trajetória da Aigle Azur, a companhia foi novamente negociada no ano 2000 e passou para as mãos do grupo GoFast, do ramo de logística. A empresa recebeu investimentos e reabriu os voos da empresa.

Nos anos seguintes a empresa foi dividida entre acionistas e ficou sob o controle do grupo chinês HNA (49%) e os empresários Gérard Houa (19%) e David Neeleman, fundador da Azul e da JetBlue e também controlador de 45% das ações da portuguesa TAP.

A Aigle Azur era segunda maior companhia aérea da França até 2018, quando transportou quase 2 milhões de passageiros. Esse número, porém, é incomparável ao da líder Air France, que no mesmo período transportou 101 milhões de pessoas - incluindo passageiros das divisões Hop! e a Transavia.

Foi um encerramento rápido para uma companhia que nasceu dos escombros da França após a Segunda Guerra Mundial e teve uma carreira discreta, sempre na sombra da gigante Air France. Com o fim da Aigle Azur, abre-se uma brecha em importantes mercados para os franceses na África, especialmente na Argélia, a antiga colônia francesa que tem maior ligação com Paris. Pode ser uma oportunidade para outras companhias francesas (incluindo a Air France) ou mesmo empresas africanas.

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